06 fevereiro 2015

TER PENA


Tens pena e eu tenho pena
Nossas penas são iguais
Não vale a pena ter pena
Porque já são penas a mais!

Ter pena pelo que não fiz
É uma pena desgraçada
Só me faz sentir infeliz
A pena não serve de nada!

Pena pelo que fiz errado
É uma pena mais sensata
Deixa-me mais aliviado
Na pena que quase me mata!

Tenho pena de já não poder
Ser aquilo que eu era
E por estar a tentar viver
Um passado, uma quimera!

Tenho pena do que me faz
Pensar tanto nesta vida
Tenho pena de lá atrás
Ver a mocidade perdida!

Na vida as penas são tantas
Que tenho e hei-de ter
Ainda nem sei penas quantas
Eu terei para esquecer!

É impossível esquecer
A pena que isso me dá
Ver tanta gente a sofrer
Só porque dinheiro não há!

Tenho pena de não ter
Esse dinheiro que falta faz
E a todos poder dizer
Tomem lá, vivam em paz!

Se mais penas houvera
Mais penas eu teria
Com tantas penas quisera
Eu não ter penas um dia!

E mesmo para terminar
Em geito de conclusão
Tenho pena de acabar
Mas já falta inspiração!

29 dezembro 2014

FAVAS DOBRADAS

Ao meu amigo José Elias Moreno que receava que o mandasse "à fava" depois de um comentário que fez ás minhas "favas dobradas"...


À fava nunca o mandarei
Mas gostava de lhe dizer
Só no tempo exagerei
Para apressado não parecer!

Seja qual for a receita
Eu por favas sou louco
Se a coisa é bem feita
Até como favas com choco!

Feitas de que maneira for
Quando a comida era escassa
Minha mãe costumava pôr
Favas, até no feijão com massa!

E se a fome me matava
Como se fora um algoz
Comia que me fartava
Umas favas com arroz!

Se já estiver a esbranquiçar
E com água e sal cozinhada
A essa costumamos chamar
Fava de sapatada!

Feitas de toda a maneira
As favas são uma alegria
Ás vezes por brincadeira
Até cruas, eu as comia!

Mas para o meu paladar
Até com algum feitiço
Nada se pode comparar
Ás belas favas com chouriço!

22 agosto 2014

GOSTO

Gosto de ouvir cantar
E também de ver rimar
Uma palavra com outra
Tudo ouço com gosto
E se estou bem disposto
Também faço uma rima ou outra!


Não sou poeta nem nada
Deixo só alinhavada
Uma rima imperfeita
Faço isto porque gosto
De ver um sorriso no rosto
De quem minha rima espreita!


Sou como um poeta acanhado
Que vive todo dobrado
Ao peso da timidez
Num sentimento de culpa
Ele quase pede desculpa
Por estes versos que fez!


Eu não tenho a ousadia
De sequer pensar que um dia
Posso ser poeta afamado
Minhas rimas vou fazendo
Na esperança que as vão lendo
E que seja assim lembrado!




13 junho 2014

PENSAMENTO


Eu penso, penso, penso
Ás vezes tanto penso
Que nem sei o que pensar!
Ando assim entretido
Tantas vezes distraído
Que nem chego a pensar!

Um pensamento à toa
Não é coisa muito boa
Que se possa acreditar!
Mas á falta de melhor
Para evitar o pior
Continuarei a pensar!







23 maio 2014

HISTORIAS DE GUERRA FINAL



Termino as minhas histórias de guerra, com esta foto do destacamento de Bassarel, dos finais de Agosto de 1974, onde se vê o arrear da nossa bandeira, numa cerimónia perante as nossas forças, o PAIGC e a população civil.

Momentos depois no mesmo local seria hasteada a bandeira do PAIGC e nós 3ª. Companhia do Batalhão de Caçadores 4615, terminávamos a nossa missão e abandonaríamos definitivamente o destacamento, deixando para trás alguns dos momentos mais difíceis das nossas jovens vidas.

Por outras palavras este é nem mais nem menos o final desta curta mas muito longa (dois anos) para mim, história de guerra. 

Ficou uma grande história de vida neste esforçado curso de sobrevivência que é a participação não desejada numa guerra de "guerrilhas", num país desconhecido, clima e terra inóspita, com dificuldades de adaptação de toda a espécie, conseguida à custa de muito trabalho e sacrifício.

Pelo meio algumas doenças, como o paludismo, a infecção intestinal e uma fractura de crânio que acabaram por me deixar marcas para o resto da vida.

Da guerra propriamente dita um "ataque ao arame", isto é, fomos atacados dentro do nosso próprio destacamento, felizmente sem qualquer baixa.

Ficaram também algumas sequelas, como aquelas que alguns anos após o regresso ainda nos faziam instintivamente atirar-nos para o chão quando inesperadamente escutávamos qualquer tiro ou o som de um festivo foguete ou aquelas que inconscientemente fazia-nos agredir as nossas companheiras quando a dormir, sonhávamos que estávamos na guerra.

Regressando a Bissau, onde a permanência foi feita na confusão que era o quartel de adidos, apesar de continuar a ser o responsável pela alimentação da companhia, tinha muitas dificuldades em o conseguir, porque eram poucos os recursos e muitos os militares naquele local a aguardar o ansiado transporte para a metrópole, o que no nosso caso só veio a acontecer quase uma semana depois com o embarque no navio que os traria até Lisboa.

Eu, o 1º. sargento Neves e um condutor, havíamos de ficar mais algum tempo até conseguir-mos fechar as contas da companhia e obter os vistos confirmando que tudo estava certo, após o que entraríamos numa lista de espera para o almejado transporte de regresso.

Quase três semanas após o embarque da companhia o meu nome surgiu na lista de embarque numa manhã em que eu desgraçadamente tinha entregue toda a minha roupa militar com a qual podia embarcar, a uma desconhecida lavadeira que não sabia onde encontrar.

Sem tempo para esperar pela lavadeira fui na emergência á intendência militar onde se faziam os espólios e lá arranjei umas calças com umas pernas enormes que tive que cortar e uma camisa. Assim vestido, apresentei-me no aeroporto e embarquei  para Lisboa, onde cheguei nesse dia à noite.

Ainda nessa noite apresentei-me no quartel de adidos, consegui o passaporte militar, apanhei o comboio, terminando a viagem na manhã do dia 29 de Setembro, na minha cidade de Faro.

Sem honra nem glória que tão pouco procurava,  encerro este capitulo de histórias de guerra.