03 março 2009

HISTORIAS PARA BOI DORMIR



Assisti há dias, na Casa do Povo de Estoi, a uma apresentação do livro “ Histórias Para Boi Dormir” da autoria do Dr. Valério Bexiga, editado pela Gente Singular Editora.

Conhecendo o Dr. Valério Bexiga há muitos anos, foi com natural curiosidade que também há muito tempo li o seu primeiro livro “O Juiz e os Fariseus”.

O sabor da sua prosa voltou a encantar-me lendo “Cabra que Pula a Vinha…”.

Agora nas “Histórias Para Boi Dormir” o autor volta a conduzir-me através de um quase histórico museu de quadros pintados no imaginário da sua particular prosa.

As tais histórias, com que pretende adormecer os acordados animais são:
-Vale mais uma boa ideia do que a arca cheia
-Mudam-se os tempos, mudam-se os pensamentos
-Quem tem mulher bonita e castelo na fronteira, nunca lhe falta canseira
-A navio roto todos os ventos são contrários
-Em caça, pesca e guerra … Mentiras no mar e em terra
-De noite todos os burros são pardos
-O dinheiro é coisa bela para quem se goza dela
-Quem porfia mata caça
-A terra é de quem a ganha e o Céu de quem o compra
-Quando um pobre sonha, o diabo espreita
-Quem serve o altar dele há-de passar

Não sei se conseguirá o pretendido, mas convenceu-me a levar o livro tendo eu em contrapartida recebido um dedicado autografo que assim agradeço:

Doutor Valério obrigado
Por neste livro ter dedicado
Um autografo á minha pessoa
Vou guardá-lo com todo o prazer
E decerto que também irei ter
Uma leitura bela e boa!

27 janeiro 2009

POESIA

A poesia só se faz
Quando a inspiração vem
Mas é preciso ser capaz
De ter inspiração também!


Rimo por isto e aquilo
E gosto de prosa rimada
Na rima sinto-me tranquilo
Digo tudo sem dizer nada!


É uma vida sem descanso
A vida de qualquer poeta
Ela é como um rimanço
Que ele nunca completa!

09 janeiro 2009

CHAROLAS E AS VIVAS

A propósito de Charolas deixo aqui algumas rimas que fiz no inicio deste ano, em resposta a outras que ouvi …

Ao Dr. Valério Bexiga que em certa altura afirmou na Casa do Povo de Estoi que as Charolas da Conceição e de Marim ao apresentar no reportório um Paso Doble, estavam a tocar música de tourada.

Não alimentando confusões
Digo ao Dr. Valério também
Que em matéria de Tradições
Cada um guarda as que tem!


Ao amigo Custodio Reis que ao iniciar o Canto Novo afirmou que novo é sempre novo

Novo é sempre novo
Diz o Custodio amigo
O natural é que o novo
Com o tempo se faz antigo!


Ao amigo José Filipe (Barriga) que afirmou que eu era "Barriga" também.

Meu avô era Barriga
Meu pai Barriga é
Mas para gente amiga
Eu atendo só por Zé!


Outra vez ao amigo José Filipe que ao tentar improvisar não atinou com a rima

José Filipe amigo
O que se passa contigo
Que não conseguiste rimar
Foi inspiração que faltou
Ou foi algo que se passou
Que te deixou a gaguejar?


Ao amigo João Faustino que me pediu para fazer uma das minhas

Estudadas, pensadas
Ás vezes mal ensaiadas
Mas ditas do coração
E se isto não lhes bastar
Tenho rimas até pra dar
Em qualquer ocasião!


Ás Charolas de Bordeira que se recusam orgulhosamente a cantar ao Menino, mas que inexplicavelmente comemoram em festa, o “Dia de Reis”.

Em Bordeira no dia seis
É feriado já se vê
Mas se não celebram os Reis
Então comemoram o quê?


Ainda ás Charolas de Santa Bárbara de Nexe e Bordeira que na Valsa das Vivas, dizem tudo menos vivas, utilizando os seus versos para criticar tudo e todos.

Com amizade verdadeira
Espero que não levem a mal
Mas estas vivas de Bordeira
Parecem quadras de Carnaval!

E agora vou terminar
Porque não quero chatear
É a última rima que faço
Desculpem a brincadeira
Aos amigos de Bordeira
Deixo aqui um forte abraço!

07 outubro 2008

RIMA COM ÁGUA

"Até faço um fontenário..."

ALGUEM ME PEDIA ASSIM
FAZ UMA RIMA PARA MIM
PARA RIMAR COM ÁGUA
E LOGO FIQUEI A PENSAR
P’RA DA ÁGUA ESCAPAR
BASTA PÔR UMA TÁBUA!

MAS DISSE CÁ PARA MIM
QUEM PEDE RIMA ASSIM
DEVE ESTAR A BRINCAR
DECERTO JÁ SABERÁ
QUANTO DIFICIL SERÁ
É SÓ P’RA ATRAPALHAR

MAS EU NÃO ME ATRAPALHO
METO MÃOS AO TRABALHO
ESTA RIMA NÃO ME EMPATA
PUXO O IMAGINÁRIO
ATÉ FAÇO UM FONTENÁRIO
E JÁ TENHO ÁGUA Á FARTA!

E PARA QUE NÃO SE DIGA
QUE ISTO É SÓ CANTIGA
NÃO EXISTE IMAGINÁRIO
DEIXO A RIMA PRETENDIDA
Á LAIA DE DESPEDIDA
EM BAIXO NO COMENTÁRIO!

06 outubro 2008

HISTÓRIAS DE GUERRA X

"Sentado em cima de uma bomba..."

Este episódio de guerra decorre a partir do momento em que tive de me deslocar ao Destacamento de Chulame. Em zona de guerra, as deslocações e transportes eram feitas com escolta ou em colunas militares naturalmente também escoltadas.
Em zonas consideradas mais perigosas as escoltas eram reforçadas pelos tanques de guerra, Panhard.

Na manhã daquele dia um Grupo escoltou-me até Chulame, ficando combinado que eu regressaria ao início da noite numa coluna de transporte de víveres que viria de Teixeira Pinto, passava próximo de Chulame e Bassarel, com destino a Calequisse.

No início da noite fui escoltado até á “picada” que ligava Teixeira Pinto a Calequisse e aí ficámos á espera da coluna.

Era noite cerrada, escondidos no mato, aguardámos.

Finalmente do escuro começam a surgir os veículos da coluna.
Mostrei-me junto á picada, para que fosse identificado. O Comandante da coluna havia sido préviamente informado da minha presença naquele local, aguardando transporte para Bassarel.

Deixei passar os primeiros hunimog que transportavam os grupos de combate e á passagem da segunda ou terceira Berliet que transportava víveres fiz sinal para parar, para que pudesse subir.
Tudo se fez quase em silêncio. Subi rapidamente para a berliet, sentei-me ao lado do seu condutor que retomou a marcha, mantendo a distância conveniente entre os veículos, de forma a não perder o contacto visual com o veículo da frente. O veiculo de trás procedia de igual forma, mantendo a distância.
No escuro não vi, nem tão pouco me preocupou o tipo de carga que transportávamos nem sequer estranhei o facto de não viajar mais ninguém naquele veículo.
Estava totalmente alerta para o perigo que poderia vir do mato que envolvia toda a picada.
Os veículos iam avançando lentamente e com muita precaução. Em silêncio, de olhos fixos no mato, prescutava a noite, na tentativa de detectar qualquer movimento suspeito naquela enorme escuridão.
Estávamos a chegar a Bassarel, a tensão baixou um pouco, o camarada guerreiro que em silêncio conduzia a berliet, sussurrou:
- Até que enfim! Que perigo dos diabos!
Eu, também um pouco mais aliviado concordei:
-Eh pá, é verdade!
Ele continuou:
- Isto de virmos sentados em cima de bidões de gasolina …
-O quê? Gasolina?! Perguntei sobressaltado.
-Sim gasolina, não sabia?
-Não! Respondi, saltando á pressa da Berliet. Afasto-me o mais rápido possível.

Entre tantas Berliet que integravam aquela coluna a sorte fez-me acertar naquela que carregada com bidões de gasolina, era uma autêntica bomba. Um só tiro seria o suficiente para ir pelos ares, sem escapatória possível.

Estava explicado o facto de não seguir mais ninguém naquele carro! Pudera! Eu era o único que tendo apanhado a coluna a meio do percurso, não sabia o conteúdo dos bidões.

Felizmente cheguei ao destino sem qualquer contratempo, para além daquele susto que apanhei mesmo á chegada.

A coluna prosseguiu até Calequisse sem acidentes.

Fiz centenas de deslocações, umas vezes apenas com escolta, outras integradas em colunas, várias vezes até Bissau, onde carregava alimentos.

Muitas vezes, passei por locais onde horas atrás tinham havido problemas, com os sinais evidentes de luta. Via restos de veículos destruídos, ainda a fumegar junto á picada. Quis o destino, a sorte ou simplesmente o acaso que nunca tivesse problemas desse género.

Após algum tempo a viver estas situações de guerra, parecia já ter envelhecido, dez ou quinze anos, apesar da juventude dos meus vinte e três anos.
O meu rosto já não espelhava alegria, mas sim, preocupação, medo, angústia e sobretudo saudade.

Uma enorme e angustiante saudade, da família, dos amigos, da terra onde nasci.

Situação válida para todos os jovens guerreiros que tal como eu, estavam naquela guerra.

Anos mais tarde ainda me perseguiam os traumas. Qualquer estrondo quer de tiro ou simples estalar de um foguete me provocava uma reacção nervosa instintiva.

Agora, passados mais de trinta anos, esqueci quase por completo.
Apenas uma ténue recordação.
Sem mágoa.
Até ao próximo episódio.