Começo esta história com uma confissão: não tinha, até aquele dia, a mínima noção do que era a Festa da Pinha. Na minha ignorância, pensava que se tratava apenas dum prolongamento do "Dia de Maio", em que as pessoas em vez de irem até à ribeira ou ao Serro do Malhão, iam para o Ludo, fazer um piquenique e divertir-se.
Aquele 2 de maio de 1970 mudou completamente esta perceção.
Era um sábado. Como vinha sendo hábito nas tardes de fim de semana, dirigi-me a Estoi na expectativa de encontrar a minha namorada que vivia na aldeia.
Passei repetidamente à porta da sua casa, mas ela não aparecia. Como não me atrevia a bater-lhe à porta, resolvi procurá-la junto das suas amigas mais chegadas. E, de facto, numa rua mais abaixo, lá estavam elas, reunidas numa grande alegria.
No meio da animação, contaram-me que após alguma insistência, tinham conseguido que o pai de uma delas concordasse em levá-las, ao fim da tarde, num carro de mula ao encontro do cortejo da Pinha. Naturalmente, querendo estar com a minha namorada, pedi que me deixassem subir para a carroça.
Partimos quase ao pôr do sol. O ar ainda guardava o calor do dia, mas a luz começava a ficar alaranjada, dando um tom dourado ás flores e aos arbustos que rodeavam a estrada. O som rítmico dos cascos da mula no chão, marcava o passo da nossa viagem.
Quando chegámos ao Coiro da Burra, ainda não havia sinal dos romeiros; por isso, o homem que conduzia o carro resolveu seguir pela estrada de Santa Bárbara de Nexe, ao seu encontro.
Algum tempo depois, começámos a ouvir um sussurrar de vozes que rasgavam a noite escura e a avistar os primeiros carros. Invertemos a marcha e, já integrados no cortejo, regressámos ao Coiro da Burra.
Ali, o cortejo parou para reagrupar.
Foi o momento solene de recebermos e acendermos os archotes. O cheiro intenso e doce da resina a arder espalhou-se rapidamente misturando-se com o fumo que começava a dançar, no crepúsculo da fraca luz que iluminava o local.
A partir do instante em que empunhei o archote aceso, a minha atitude mudou completamente: agora sim, sentia-me um romeiro!
Durante todo o desfile pela aldeia, agitei freneticamente o archote, vendo o brilho do fogo refletido nas janelas e no rosto orgulhoso, das gentes de Estoi.
Respondi com todo o vigor aos gritos de "Viva a Festa da Pinha!" com que nos incitavam.
A passagem pela aldeia até ao cruzeiro da Senhora do Pé da Cruz foi uma experiência única, iluminada por centenas de archotes e pontuada pelo som entusiasmante das Vivas à Pinha, celebrando uma tradição que, a partir dessa noite, passou a ser também minha.
Percebi que esta festa única que acontece todos os anos no início de maio, não era apenas mais uma celebração; era uma jornada de fé, comunhão e partilha, onde uma aldeia inteira se torna num só coração!
JJ..

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