18 maio 2026

A MINHA PRIMEIRA IDA À PINHA

 



Começo esta história com uma confissão: não tinha, até aquele dia, a mínima noção do que era a Festa da Pinha. Na minha ignorância, pensava que se tratava apenas dum prolongamento do "Dia de Maio", em que as pessoas em vez de irem até à ribeira ou ao Serro do Malhão, iam para o Ludo, fazer um piquenique e divertir-se.

Aquele 2 de maio de 1970 mudou completamente esta perceção.

Era um sábado. Como vinha sendo hábito nas tardes de fim de semana, dirigi-me a Estoi na expectativa de encontrar a minha namorada que vivia na aldeia.

Passei repetidamente à porta da sua casa, mas ela não aparecia. Como não me atrevia a bater-lhe à porta, resolvi procurá-la junto das suas amigas mais chegadas. E, de facto, numa rua mais abaixo, lá estavam elas, reunidas numa grande alegria.

No meio da animação, contaram-me que após alguma insistência, tinham conseguido que o pai de uma delas concordasse em levá-las, ao fim da tarde, num carro de mula ao encontro do cortejo da Pinha. Naturalmente, querendo estar com a minha namorada, pedi que me deixassem subir para a carroça.

Partimos quase ao pôr do sol. O ar ainda guardava o calor do dia, mas a luz começava a ficar alaranjada, dando um tom dourado ás flores e aos arbustos que rodeavam a estrada. O som rítmico dos cascos da mula no chão, marcava o passo da nossa viagem.

Quando chegámos ao Coiro da Burra, ainda não havia sinal dos romeiros; por isso, o homem que conduzia o carro resolveu seguir pela estrada de Santa Bárbara de Nexe, ao seu encontro.

Algum tempo depois, começámos a ouvir um sussurrar de vozes que rasgavam a noite escura e a avistar os primeiros carros. Invertemos a marcha e, já integrados no cortejo, regressámos ao Coiro da Burra.

Ali, o cortejo parou para reagrupar.

Foi o momento solene de recebermos e acendermos os archotes. O cheiro intenso e doce da resina a arder espalhou-se rapidamente misturando-se com o fumo que começava a dançar, no crepúsculo da fraca luz que iluminava o local.

A partir do instante em que empunhei o archote aceso, a minha atitude mudou completamente: agora sim, sentia-me um romeiro!

Durante todo o desfile pela aldeia, agitei freneticamente o archote, vendo o brilho do fogo refletido nas janelas e no rosto orgulhoso, das gentes de Estoi.

Respondi com todo o vigor aos gritos de "Viva a Festa da Pinha!" com que nos incitavam.

A passagem pela aldeia até ao cruzeiro da Senhora do Pé da Cruz foi uma experiência única, iluminada por centenas de archotes e pontuada pelo som entusiasmante das Vivas à Pinha, celebrando uma tradição que, a partir dessa noite, passou a ser também minha.

Percebi que esta festa única que acontece todos os anos no início de maio, não era apenas mais uma celebração; era uma jornada de fé, comunhão e partilha, onde uma aldeia inteira se torna num só coração!

JJ..


04 maio 2026

QUADRAS SOLTAS




Passado

O passado e o presente
É uma dupla que me apraz
Se o presente vai na frente
O passado vai logo atrás!


Destino

Não vale a pena fugir
Do nosso destino marcado
Porque ele sempre há-de ir
Connosco pra todo o lado!


Realidade

O sonho e a realidade
Pra vida são importantes
Porque uma boa realidade
Tem que ser sonhada antes!


Cabeça

Se alguma vez por acaso
Ouvires um som estranho no ar
Por favor não faças caso
É a minha cabeça a pensar!


Pensamento

Penso isto, penso aquilo
Penso tudo o quiser
Ás vezes até penso naquilo
Que se faz com uma mulher!



Inspiração

Para mim a inspiração
É aquilo que a gente sente
Vive na imaginação
Nasce e morre com a gente!

 


VERDADE CONHECIDA

 

VIDA


Uma verdade conhecida
Que muita gente saberá
Quanto mais se dá à vida
Mais a vida nos dará!

Sempre podemos melhorar
Uma vida que não presta
Dando o que temos para dar
Na vida que ainda nos resta!

Quando na vida acontece
Algo que nos entristece
Só nos apetece desestir!

Mas depois de ultrapassado
Esse nosso mau bocado
Já queremos cantar e rir!

ÁS VEZES FICO PENSANDO

 

MOTE

 

 Há tantos burros mandando

Em homens de inteligência

Que às vezes fico pensando

Que a burrice é uma ciência

(A.   Aleixo)


Dou por mim a lamentar
As guerras que nos vão matando
E só me apetece exclamar
Há tantos burros mandando!

Apelando solto um grito
Aos que temos consciência
Porque confio e acredito
Em homens de inteligência!

Mas não é o que acontece
Com tudo que está passando
Minha fé tanto esmorece
Que ás vezes fico pensando!

Será que estive errado
Em toda a minha existência
E foi algum dia decretado
Que a burrice é uma ciência!

(José Joaquim)

01 maio 2026

VIVA A FESTA DA PINHA








Almocreve Por Um Dia!


Vou-me vestindo devagarinho
Na beira da cama sentado
Ponho no pescoço um lencinho
Todo de vermelho pintado!

Chapéu preto na cabeça
Colete desabotoado
Camisa que transpareça
Um branco imaculado!

As calças a condizer
Uma cinta apertadinha
Faz aumentar o prazer
De ir à Festa da Pinha!

É tão grande a alegria
Que dificilmente se descreve
De ser ou parecer neste dia
Como em festa, um almocreve!

Falta pouco ou quase nada
Oiço os foguetes estalar
Já se faz a alvorada
A festa vai começar!

Saio de casa a correr
Não me posso atrasar
Apresso-me por não querer
Que abalem sem eu chegar!

Chego ao recinto apressado
O picadeiro já fervilha
O cortejo está preparado
P`ra vista uma maravilha!

Nosso pároco já chegou
E abençoou com sucesso
A todos ele desejou
Boa ida e bom regresso!

Entre cheiros e encantos
De muitos arranjos florais
Saúdo amigos tantos
Com abraços fraternais!

Já é grande a euforia
Aos poucos vai aumentando
Está em marcha a romaria
Por entre o povo passando!

Rádio Simão lá na frente
Marcha da Pinha a tocar
Anuncia a toda gente
Que o cortejo vai a passar!

Acorrem jovens e idosos
Uma grande multidão
Até estrangeiros curiosos
Nos olham com admiração!

Todos nos vão saudando
Numa tradição já velhinha
De braços no ar gritando
Viva a Pinha!!! Viva a Pinha!!!

02 março 2026

MEU NOME

 


Que sou o José Joaquim
Todos sabem que assim é
Se quiseres chamar por mim
Podes-me chamar só por Zé!

Mais um pequeno atalho
Para ver se me distingues
Na tropa e no trabalho
Todos me chamavam Rodrigues!

Apenas para completar
Meu nome nos envelopes
À minha mãe fui buscar
O belo nome de Lopes!

Minha alcunha é bem antiga
Como é uso em Estoi
Alguns me chamam "Barriga"
Tal como meu pai assim foi!

Mas talvez por simpatia
Mais uma alcunha eu tinha
Amigos no dia a dia
Tratavam-me por "Barriguinha"!

E houve outras mais
Algumas bem infelizes
Como o "Zé dos Pardais"
Ou o "Chico das Perdizes"!

Por ser de longa distancia
Deixei a primeira para o fim
Porque lá na minha infância
Só me chamavam "Quim-Quim"!

Por todas eu respondia
Sem qualquer melindre ou favor
Decerto eu saberia
Não era por mal, era amor!

Só para poder terminar
Estas minhas rimas a fio
Também me podem chamar
Por "O poeta vadio"!


07 janeiro 2026

CHAROLAS UMA TRADIÇÃO

 




É bonito ouvir as charolas !!!


É bonito ouvir as charolas
Por todo o lado a cantar
Pandeiros e castanholas
E acordeões a tocar!

E os cantos tradicionais
Que cantam com emoção
Acreditando que jamais
Vai morrer a tradição!

As vivas fazem aos pares
Ditas por tudo e por nada
E se não rimou não repares
É preciso é ser engraçada!

O Menino na caixinha
Não faz mal a ninguém
Vai pedindo uma moedinha
Aceita notinhas também!

Quem não puder contribuir
Pode ficar descansado
Ele só anda a pedir
A dar, ninguém é obrigado!

Hoje pouco são convidados
Para numa casa entrar
É nos palcos apresentados
Que os querem ouvir cantar!

Agora são controlados
Tal como se fossem joguetes
Já não cantam embriagados
E nem lançam mais foguetes!

São as coisas a mudar
Embora pareça que não
Aos poucos está a chegar
Uma nova tradição!

E quer se queira ou não
Nada o fará parar
Vai mudando a traição
É o futuro a chegar!

Olhar para trás é proibido
Esqueçam essa tradição
Já não faz muito sentido!

Mas continuam a cantar
Recordando pais e avós
É um sentimento sem par
Que corre dentro de nós!

Na minha opinião
Acreditem podem crer 
É assim a tradição
E sempre assim há-de ser!

A tradição quando pura
Nunca deverá acabar
É uma imensa cultura
Um conhecimento sem par!